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Como Funciona o Juro Composto nas Dívidas (e Por Que Ela Cresce Tão Rápido)

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Toda dívida de cartão de crédito começa pequena e, em poucos meses, parece ter vida própria. Quem já caiu no rotativo sabe a sensação: a fatura não para de crescer mesmo sem novas compras. A explicação não tem nada de misterioso, é matemática pura, e entender essa matemática é o primeiro passo para não subestimar o tamanho do problema.

Juro simples: a régua que a maioria das pessoas imagina na cabeça

No juro simples, a taxa incide sempre sobre o valor original da dívida, e só sobre ele. Se você deve R$ 1.000 a 15% ao mês de juro simples, paga R$ 150 de juros todo mês, sempre calculado em cima dos mesmos R$ 1.000, não importa quantos meses passem sem pagamento. Depois de seis meses, a dívida teria subido para R$ 1.900 (o principal de R$ 1.000 mais seis parcelas de R$ 150). É um crescimento linear: reto, previsível e, como você vai ver a seguir, bem mais lento do que a realidade do rotativo do cartão.

Juro composto: quando o juro passa a gerar juro

O juro composto funciona diferente: a cada período, a taxa incide sobre o saldo total, ou seja, o valor original mais todos os juros que já foram acumulados até ali. É o chamado juros sobre juros. No rotativo do cartão de crédito é exatamente assim que a dívida é corrigida, mês a mês, sobre o saldo devedor inteiro, já com os encargos do mês anterior embutidos.

Segundo dados do Banco Central do Brasil, o juro médio do rotativo do cartão ficou em 428,3% ao ano em março de 2026, o que equivale a uma taxa aproximada de 15% ao mês. É essa a taxa usada no exemplo a seguir, porque é a taxa real que incide sobre quem deixa de pagar a fatura inteira.

A mesma dívida, dois jeitos de crescer

Pegue os mesmos R$ 1.000 do exemplo anterior, agora corrigidos por juro composto de 15% ao mês, sem nenhum pagamento:

  • Mês 0: R$ 1.000,00
  • Mês 1: R$ 1.150,00
  • Mês 2: R$ 1.322,50
  • Mês 3: R$ 1.520,87
  • Mês 4: R$ 1.749,00
  • Mês 5: R$ 2.011,36
  • Mês 6: R$ 2.313,06

Compare com o juro simples do primeiro exemplo: R$ 1.900 no sexto mês contra R$ 2.313,06 no juro composto, mais de R$ 400 de diferença sobre a mesma dívida inicial, na mesma taxa, no mesmo período. Essa diferença não é fixa, ela aumenta a cada mês, porque o juro do mês seguinte incide sobre um saldo cada vez maior, que já contém o juro do mês anterior.

Por que uma dívida pequena vira impagável em poucos meses

O detalhe que faz toda a diferença é onde a taxa é aplicada. No juro simples, os R$ 150 mensais nascem sempre do mesmo lugar: os R$ 1.000 originais. No juro composto, a base sobre a qual a taxa incide sobe todo mês, e como a taxa incide sobre um valor maior, o juro em reais também é maior, mesmo que o percentual continue igual a 15%. É um crescimento exponencial, não linear: no começo a diferença parece pequena, mas ela se multiplica sobre si mesma a cada ciclo.

É por isso que uma dívida de R$ 1.000 no rotativo, se simplesmente ignorada, ultrapassa os R$ 2.000 em cerca de cinco meses, ela mais que dobrou de tamanho sem que um único real novo tenha sido gasto no cartão. A renda de quem está devendo, em geral, cresce de forma linear, um salário reajustado uma vez por ano, por exemplo. A dívida no rotativo cresce de forma exponencial. Quando essas duas curvas se encontram, a matemática já não está mais do lado de quem deve.

Vale registrar que existe hoje um limite legal para esse efeito: pela Lei 14.690/2023, os juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem fazer a dívida ultrapassar duas vezes o valor original. É uma barreira importante, mas ela não muda a lógica da conta, só interrompe o composto num teto mais adiante. Entender essa matemática, mês a mês, é o que separa quem trata o rotativo como um problema urgente de quem só percebe o tamanho real da dívida quando ela já cresceu demais para caber no orçamento.