Se você já leu o nosso guia de criptomoedas para iniciantes, já sabe o básico: o que é, como comprar, como declarar no Imposto de Renda. O que a maioria dos guias não conta é por que “minerar” Bitcoin consome tanta eletricidade — e por que essa conta mudou de forma radical para outras redes, como o Ethereum, a partir de 2022. Este texto é sobre isso: energia, números reais e o que está de fato mudando.
Por que o Bitcoin gasta tanta energia (de propósito)
O Bitcoin usa um modelo chamado Proof of Work (Prova de Trabalho). Na prática, milhares de computadores especializados — os “mineradores” — competem para resolver um cálculo matemático sem atalho, só na força bruta. Quem resolve primeiro valida o próximo bloco de transações e recebe a recompensa em bitcoin. Esse gasto de energia não é um efeito colateral indesejado: é o próprio mecanismo de segurança da rede. Para fraudar o histórico de transações, alguém precisaria refazer todo esse trabalho computacional, o que exigiria uma quantidade de energia proibitivamente cara. É energia trocada por segurança e descentralização — essa é a lógica original, e ela segue valendo hoje.
Os números: quanto o Bitcoin consome hoje
Segundo o Cambridge Bitcoin Electricity Consumption Index (CBECI), mantido pelo Cambridge Centre for Alternative Finance, a rede Bitcoin vem consumindo entre 138 TWh e cerca de 170 TWh de eletricidade por ano nas estimativas mais recentes (entre o início de 2025 e fevereiro de 2026) — o intervalo varia conforme a metodologia usada para estimar a eficiência média dos equipamentos ativos. O Digiconomist, outro índice independente, chega a uma faixa parecida, perto de 150-155 TWh.
Para dar dimensão: isso é mais eletricidade do que países inteiros, como Polônia ou Tailândia, consomem em um ano inteiro, e representa entre 0,5% e 0,7% de toda a eletricidade gerada no planeta. Em emissões de carbono, o próprio relatório do Cambridge Centre for Alternative Finance estima cerca de 39,8 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano; o Digiconomist, com metodologia diferente, chega a um número bem mais alto, perto de 98 milhões de toneladas. Essa diferença grande entre as estimativas mostra como é difícil medir isso com precisão: ninguém sabe ao certo onde cada minerador está localizado nem qual fonte de energia ele usa em cada momento.
Ethereum e o Proof of Stake: uma conta completamente diferente
Em setembro de 2022, o Ethereum trocou de mecanismo de consenso no evento conhecido como “The Merge”: saiu do Proof of Work e foi para o Proof of Stake (Prova de Participação). Em vez de milhares de máquinas competindo em cálculos, a rede passou a escolher quem valida cada bloco com base em quanto ether a pessoa tem bloqueado como garantia (staked) — sem competição computacional envolvida.
O resultado, medido pelo próprio Cambridge Centre for Alternative Finance, foi uma queda de mais de 99,9% no consumo de energia da rede: de cerca de 23 milhões de megawatt-hora por ano para pouco mais de 2.600 MWh logo após a transição. Vale um adendo honesto: relatórios mais recentes mostram que esse consumo voltou a crescer nos últimos anos, puxado pelo aumento do número de validadores. Mesmo assim, mesmo triplicando, o Ethereum continua partindo de uma base tão pequena que o consumo segue irrelevante perto do que o Proof of Work do Bitcoin exige.
A mineração de Bitcoin está ficando mais limpa?
Do lado do Bitcoin, o quadro também mudou nos últimos anos. Segundo o relatório mais recente do Cambridge Centre for Alternative Finance, cerca de 52% da eletricidade usada pelos mineradores já vem de fontes de emissão zero: 42,6% de fontes renováveis (hidrelétrica é a maior fatia, com 23,4%, seguida de eólica e solar) e quase 10% de energia nuclear. O gás natural segue como a maior fonte isolada, com 38,2% do total, e o carvão caiu para 8,9%.
Parte dessa mudança é estratégia de custo, não só de imagem: mineradores buscam energia excedente e barata, como a da represa de Itaipu no Paraguai, ou projetos que aproveitam gás que seria queimado em flares de poços de petróleo nos Estados Unidos — reduzindo emissões em até 63% frente à queima tradicional a céu aberto. No Brasil, empresas como a Axia Energia testam mineração conectada a usinas solares e a uma planta heliotérmica em Petrolina (PE), e o estado da Bahia vem se consolidando como um polo nacional de mineração associada a energia renovável.
Sem exagero, sem minimização
Os números não mentem para nenhum lado do debate. O Bitcoin consome, sim, mais energia do que a maioria dos países do mundo, e sua pegada de carbono é real e mensurável — ainda que as estimativas variem bastante dependendo da fonte consultada. Ao mesmo tempo, o modelo de segurança do Bitcoin é intencional, não um descuido, e a fatia de energia renovável usada pelos mineradores vem crescendo ano a ano. O Ethereum mostrou, na prática, que é possível manter uma blockchain relevante gastando uma fração disso — mas trocar de mecanismo de consenso envolve outros trade-offs de segurança e descentralização que não cabem neste artigo. Os dados estão postos; a conclusão é sua.
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