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Imposto sobre Eletrônicos em 2026: o Que Mudou de Verdade (e o Que Foi Revertido)

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O que realmente aconteceu com o imposto sobre eletrônicos em 2026

Diferente do que muita manchete sugeriu, não houve a criação de um imposto novo e permanente sobre eletrônicos em 2026. O que houve foi um aumento real do Imposto de Importação (II) anunciado em fevereiro — e parcialmente revertido três semanas depois, após reação negativa do Congresso e do setor produtivo. Este texto reconstrói a linha do tempo com base em fontes oficiais e reportagens especializadas, e explica o que, de fato, ficou mais caro.

A resolução que elevou as tarifas (fevereiro de 2026)

No dia 4 de fevereiro de 2026, o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) publicou a Resolução Gecex nº 852/2026, reajustando o Imposto de Importação para mais de 1.200 posições tarifárias (NCMs) de bens de informática, telecomunicações e bens de capital. As novas alíquotas entraram em vigor em 6 de fevereiro.

  • NCMs com alíquota entre 7,2% e 12,6% foram elevados para 12,6%;
  • NCMs com alíquota entre 12,6% e 20% foram elevados para 20%;
  • Smartphones passaram de 16% para 20%;
  • Processadores (CPU), que estavam em alíquota zero, passaram a ser taxados — uma errata publicada em 25/02 limitou o teto para CPUs, GPUs, memórias RAM e placas-mãe a 12,6%, depois que a imprensa especializada chegou a noticiar percentuais de até 20% em algumas dessas categorias.

Segundo nota do Ministério da Fazenda, a justificativa oficial foi conter o crescimento das importações de bens de capital e informática (alta relatada acima de 33% desde 2022) e proteger a cadeia produtiva nacional, já que produtos importados chegariam a representar mais de 45% do consumo em algumas categorias.

O recuo de 27 de fevereiro

Depois de repercussão negativa no Congresso e nas redes sociais — e de reclamações do setor produtivo, que também importa esses itens como insumo — o Gecex recuou parcialmente. Em 27 de fevereiro de 2026, o comitê:

  • zerou o Imposto de Importação de 105 itens que tinham sido taxados no início do mês;
  • restabeleceu a alíquota anterior para outros 15 itens, entre eles smartphones (de volta a 16%), notebooks, roteadores, mouses e CPUs (de volta à alíquota zero).

Ou seja: das mais de 1.200 posições tarifárias atingidas pela resolução original, o governo recuou em 120. Isso significa que a maior parte das posições afetadas pela alta de fevereiro segue com a alíquota majorada — o recuo foi concentrado nos itens de maior visibilidade para o consumidor final (celular, notebook, roteador, mouse) e não necessariamente em componentes de hardware vendidos separadamente, como placas de vídeo, módulos de memória RAM e placas-mãe, que não apareceram nominalmente na lista dos 15 itens revertidos segundo o noticiado.

Quanto isso pesa no bolso, na prática

Antes do recuo, a imprensa especializada em hardware chegou a estimar que a alta em CPU, GPU e memória RAM poderia encarecer a montagem de um computador em até R$ 2 mil, dependendo da configuração. Essa conta mudou depois de 27 de fevereiro: como o CPU voltou à alíquota zero, o impacto direto do Imposto de Importação numa montagem típica caiu bastante. O que não há confirmação pública consolidada, até a publicação deste texto, é se placas de vídeo, memórias e placas-mãe seguem na alíquota majorada (até 12,6%) ou se algum ajuste posterior também as alcançou — vale conferir a resolução Gecex vigente para o NCM específico do produto antes de fechar a compra de componentes importados.

Para quem compra celular ou notebook pronto, a conta é mais simples: a alíquota voltou a 16%, o mesmo patamar de antes de fevereiro. Ou seja, hoje não há um efeito adicional de Imposto de Importação sobre esses dois produtos por conta especificamente desse episódio.

Isso é a mesma coisa que a Reforma Tributária (IBS/CBS)?

Não. São três frentes tributárias diferentes andando ao mesmo tempo em 2026, e é fácil confundir uma com a outra:

  • Imposto de Importação (II) — tarifa aduaneira federal, ajustada por resolução do Gecex/Camex, como no episódio acima. Não depende de lei nem de aprovação do Congresso; é decisão do Executivo e pode mudar rapidamente.
  • Reforma Tributária do consumo (IBS/CBS) — está em fase de teste desde 1º de janeiro de 2026. Por enquanto é cobrada uma alíquota somada simbólica de 1% (0,9% de CBS federal + 0,1% de IBS), apenas para calibrar o sistema, e os valores são destacados nas notas fiscais com caráter informativo. A CBS substituirá PIS, Cofins e IPI; o IBS substituirá ICMS e ISS, num processo gradual que se estende até 2033.
  • Lei de Informática (Lei 8.248/1991) — mecanismo mais antigo que reduz o IPI de produtos de informática fabricados no Brasil dentro do Processo Produtivo Básico (PPB), em troca de investimento em pesquisa e desenvolvimento. A redução segue valendo em 2025 e 2026 (75% para quem segue o PPB padrão, 95% para quem desenvolve o produto no país), e é um dos motivos pelos quais alguns notebooks e computadores “nacionais” competem em preço com os importados.

Nenhuma dessas três frentes representa, até a publicação deste texto, a criação de um imposto novo e permanente sobre eletrônicos em geral. O episódio de fevereiro foi um ajuste de tarifa de importação, parcialmente desfeito 23 dias depois.

E as compras internacionais (AliExpress, Shein, Amazon)?

Esse é outro ponto que costuma ser confundido com “imposto sobre eletrônico”, mas é um regime à parte: o das remessas internacionais compradas por pessoa física. Hoje, compras de até US$ 50 pagam apenas o ICMS estadual (17% a 20%, dependendo do estado), já que a alíquota federal de 20% que incidia sobre essa faixa foi zerada. Compras acima de US$ 50 continuam pagando 60% de Imposto de Importação mais o ICMS estadual. A reforma tributária prevê que, a partir de 1º de janeiro de 2027, entre também uma cobrança federal via CBS sobre essas remessas — hoje estimada perto de 9%, mas o valor final ainda depende de regulamentação futura.

Como saber se um eletrônico ficou mais caro por imposto ou por outro motivo

Antes de atribuir uma alta de preço a “novo imposto”, vale checar três coisas:

  • Câmbio — boa parte dos componentes eletrônicos é cotada em dólar. Uma variação cambial de poucos pontos percentuais já mexe no preço final antes de qualquer tributo mudar.
  • NCM específico do produto — a Resolução Gecex nº 852/2026 não mexeu em todos os eletrônicos igualmente: alguns NCMs subiram, outros ficaram como estavam, e 120 tiveram a alta desfeita depois. Não dá para generalizar “eletrônico” como categoria única.
  • Escassez pontual — picos de demanda por um chip ou componente específico encarecem o produto independentemente de qualquer decisão tributária.

Para confirmar a alíquota vigente de um produto específico, o NCM dele pode ser consultado nas resoluções do Gecex publicadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, no âmbito da Camex.

Resumo

  • Houve, sim, um aumento real do Imposto de Importação para mais de 1.200 itens de informática e telecom em 4 de fevereiro de 2026 (Resolução Gecex nº 852/2026).
  • Em 27 de fevereiro, o governo recuou em 120 desses itens — zerou 105 e devolveu a alíquota anterior a 15, incluindo smartphones, notebooks e CPUs.
  • A maior parte das mais de 1.200 posições atingidas segue com a tarifa mais alta; componentes de hardware avulsos (GPU, RAM, placa-mãe) são os que exigem mais atenção hoje.
  • Isso não é a Reforma Tributária (IBS/CBS), que segue em fase de teste com efeito ainda limitado sobre o preço final em 2026.
  • Antes de culpar o imposto por um preço mais alto, vale checar o câmbio e o NCM específico do produto.